terça-feira, 11 de outubro de 2011

Hotel Meliá

JARDIM EUROPA, SÁBADO, 21 HORAS. Uma festa particular, em um dos mais luxuosos hotéis da zona oeste de São Paulo, ocorre esta noite para cerca de trinta pessoas. Logo na entrada, à esquerda do salão principal, após a mesa de quitutes que serve salmão, lula e outros petiscos marinhos, concentram-se agentes em roda à volta da estrela solitária dos tabuleiros: o norueguês Magnus Carlsen. 

O menino, de 20 anos, olhos melancólicos e distantes, veste uma de suas famosas camisas G-Star verde-musgo, calça jeans e tênis, exibindo uma cabeleira ainda molhada e levemente despenteada. Ele está cansado, após uma caminhada de quase quarenta minutos desde o Parque do Ibirapuera até o Hotel Meliá, onde também está hospedado, mas seu rosto não exibe sinais de exaustão. 

Por dentro, Magnus está radiante, com a adrenalina ainda correndo pelas veias. Embora ele se mantenha contido e mesmo frio durante a festa, as pessoas que o cercam notam o esboço de um leve sorriso no canto de sua boca. E a razão de tudo é bem simples: Magnus acabara de vencer o líder do Grand Slam de Xadrez, na caixa de vidro montada dentro do Parque, e pôde reaver, assim, a chance de lutar pelo título do torneio.

Ao lado da mesa de petiscos nobres, sem dar a mínima atenção para o garoto, está Albert Silver, editor do ChessBase, maior site de notícias sobre xadrez no mundo, em um bate-papo animado com o seis-vezes-campeão-brasileiro Gilberto Milos Jr. Eles degustam o salmão e elogiam a comida, bebendo em seguida uma batida de morango com rum. Na outra ponta, cercado pelas brasileiras Paula Delai e Bárbara Farhat, o falastrão Francisco Vallejo Pons, ou Paco para os amigos, conta histórias e arranca gargalhadas da turma argentina, que, deste lado de cá do salão, cuja iluminação é leve e propositalmente escurecida, parece ser encabeçada pelo jornalista do La Nación, Carlos Llardo.

Não são as únicas celebridades do mundo enxadrístico presentes. Andando pelo centro do local, pode-se esbarrar no espaçoso Leontxo García, a lenda do jornal espanhol El País, que fala animadamente com os organizadores do Grand Slam de Bilbao. Andoni Madariaga, secretário geral do Grand Slam, é ainda mais entusiasmado. O secretário fala e gesticula com rapidez, interagindo com García à lá blitz. Discutem o futuro do futebol espanhol e - Andoni é enfático e otimista ao debater o assunto - o destino do Atlético de Madri na Copa da UEFA. Davy D’Israel e sua esposa Marta, organizadores da etapa de São Paulo junto com Milos, sorriem e compartilham da felicidade do grupo basco. Todos ali, sutilmente, estão celebrando também o excelente resultado da primeira metade do certame no Brasil.

A alguns metros, porém, uma pessoa não está feliz. É Vassily Ivanchuk, a lenda-viva do xadrez ucraniano, tão mencionado por sua genialidade nos tabuleiros quanto pelas suas excentricidades e loucuras fora dele. Sentado em um sofá largo e confortável, em um dos cantos da festa, Vassily olha vazio para o horizonte. Cruza as pernas, a mão direita sobre a testa, que recebe uma leve carícia dos dedos... Continua quase sem piscar os olhos, quase sem respirar. Sua mente voa a mil, seis horas atrás, quando o mais forte Grande Mestre da Ucrânia moveu o peão da coluna-b uma casa à frente, no vigésimo segundo lance. “Provavelmente”, pensa Vassily naquele instante, “foi meu primeiro grande erro”.

Sua esposa chega ao salão e vai sentar-se ao seu lado, sem falar coisa alguma. Sabe que tampouco faria diferença dizer-lhe algo... Sem mexer os olhos, ele troca as pernas de posição, mas continua impassível e angustiado, enfrentando um forte sofrimento. O enxadrista repassa toda a partida daquela tarde em sua mente e a esposa tem consciência de que tentar conversar, nesses momentos, é em vão. O brilhante jogador Vassily Ivanchuk, de 42 anos, está deprimido porque perdeu uma partida de xadrez.

O espaço mais concorrido do pequeno coquetel é onde dois garçons servem champanhe e vinho, branco ou tinto, aos convidados da festa. Também há caipirinhas e batidas com vodka, abacaxi ou kiwi, a serem distribuídas aos presentes. Na fila, esperando pacientemente sua vez de ser servido, está o nipoamericano Hikaru Nakamura, de 23 anos. Se fosse visto em qualquer outro lugar, ele seria confundido facilmente com um jovem geek colecionador de mangás. Aqui neste salão, entretanto, é o Grande Mestre americano mais forte depois de Bobby Fischer e, também, o provável novo aluno de Garry Kasparov. Inevitavelmente, a atenção de todos se volta para o baixinho gordinho tão genial quanto polêmico, que pega um drink de sakê e se afasta do bar.

Os brasileiros ficam juntos, falando dos tipos estrangeiros e dos últimos acontecimentos do torneio. Krikor Mekhitarian, com uma camiseta vermelha descolada, apresenta Levon Aronian aos demais. Ele trabalhou como segundo de Aronian por toda a última semana, hospedando-se, inclusive, no mesmo hotel que o jogador. Todavia, formalidades são desnecessárias neste caso, uma vez que Aronian é, de longe, o mais simpático e sociável dos top players. O sorridente armênio pede uma bebida para Albert Silver, que acabara de se juntar a eles, e, com o copo nas mãos, começa a brincar com todos. Interrompido pela jovem Amanda Marques, Levon vira-se alegremente para bater uma foto com ela. Está contente, solto, diferente de qualquer outro Grande Mestre naquele hotel. Parece o único, a bem da verdade, que não está pensando em xadrez.

Quem também se aproxima é o campeão mundial Viswanathan Anand, de 41 anos. Mas ele apenas os cumprimenta discretamente com a cabeça e caminha para onde está o irmão de Gilberto Kassab, prefeito da cidade, com a esposa e dois filhos adolescentes. Anand está elegante, com um terno grafite escuro e camisa rosa, sua voz fina destoando dos lances fortes que empregou naquela tarde, quando empatou com Levon na caixa de vidro. O Mestre Internacional Herman Claudius van Riemsdijk vem falar com ele, junto com seu filho Marius e o árbitro argentino Blas Pingas. Anand conversa com o grupo amigavelmente, como se se conhecessem há décadas.

A possibilidade da caixa de vidro ficar mais tempo em exposição no Parque do Ibirapuera é o assunto na rodinha dos brasileiros. “Será que vão desmontá-la?”, perguntam. “Poderiam fazer outros torneios lá dentro”, um deles retruca. “Quem sabe, devemos usar o local como um templo sagrado de devoção ao esporte”, completa outro. Aronian os deixa por um momento para interagir com o educadíssimo Grande Mestre Ian Rogers e sua esposa Cathy Rogers, que vieram da Austrália acompanhar o campeonato. O casal australiano parece um pouco perdido naquele ambiente. O Grande Mestre não abandona seu bloquinho de anotações e mantém-se em posição de repórter o tempo todo. Ele quer falar com Anand, mas é gentil demais para interromper a conversa do indiano com o irmão do prefeito. Nakamura também está ali por perto, posando para fotos e cumprimentando o empresário José Alberto dos Santos e o presidente do Clube de Xadrez de São Paulo Celso Freitas. Em seguida, Henrique Salama, presidente da Federação Paulista de Xadrez, e seu filho, André Salama, aparecem para completar o bando.

Ainda paralisado, visivelmente deprimido e pensativo no sofá, está Ivanchuk. Sua esposa Oksana, como uma fiel escudeira, não desiste de guardar posição ao seu lado, embora nem olhe para ele ou emita qualquer som. Ninguém tem coragem de se aproximar. Ele cruza os braços e mira o infinito, com um olhar perdido e solitário, um cão abandonado: “Sem jogar o Rei em f2, no trigésimo sétimo lance, talvez eu ainda pudesse salvar aquele jogo... e me salvar”.

Totalmente compenetrado em suas análises, Ivanchuk não percebe que, a alguns metros dali, Leontxo García conta uma das recentes anedotas a respeito do ucraniano para um grupo de espanhóis, composto também, paradoxalmente, por duas belas mulatas brasileiras. “Na quarta-feira, distraído, Ivanchuk tomou um gole da garrafinha de Vallejo”, conta Leon. “Paco não ficou bravo, mas, para evitar que isso se repetisse, colocou a garrafa no chão da caixa de vidro. Enquanto passeava pela urna, refletindo sobre sua partida, Vassily chutou a garrafinha sem querer!”, gargalhou o jornalista, uma espécie de Galvão Bueno espanhol. De fato, a cena ocorreu nestes moldes e, na entrevista coletiva após a rodada, Leontxo perguntou a Ivanchuk se ele pensava haver algum elixir mágico na bebida de Vallejo, para persegui-la dentro da urna. Muito mais descontraído e animado do que nesta noite, o ucraniano lhe respondeu: “Sim, por certo! Tanto que Vallejo venceu a Carlsen e eu ganhei de Anand neste dia”.

Quando Chucky finalmente se levantou e caminhou até a mesa de bebidas, Magnus já não estava mais no salão do Hotel Meliá. Talvez a presença do norueguês limitasse as ações de Ivanchuk, como se ele ainda estivesse sentindo-se pressionado pela partida. “Viño branco, por favor!”, disse pausada e gentilmente ao garçom, em um claro e simpático esforço de falar em português. A esposa do Grande Mestre brasileiro Gilberto Milos tentou puxar assunto e envolver Vassily em sua conversa com outras duas mulheres, Juliana Kamada, casada com James Mann Toledo, e Dayse Lemos Vescovi, mulher de Giovanni Vescovi, o número 1 do Brasil: “As praias brasileiras são muito boas”, comentou. Mas a lenda ucraniana apenas acenou, concordando com a cabeça, e rapidamente foi pedir outra taça de vinho.

Quase duas horas após Magnus Carlsen ter deixado aquele salão, os espanhóis já estavam eufóricos, tanto pelas inesgotáveis anedotas de Leontxo e efusivos debates propostos por Madariaga quanto pelos decotes fartos e belos das mulatas brasileiras. No meio de toda aquela animação, Nakamura resolveu seguir os passos de Carlsen e desapareceu tão sutil quanto um ninja, tão silencioso quanto um monge tibetano. Minutos depois, ainda no elevador a caminho do 10º andar, onde se hospedava, ele postou em seu twitter: “Última noite no Brasil, vou sentir saudades”.

Agora Ivanchuk, após as seguidas taças de vinho branco, caminha de um lado para o outro, segurando ambas as mãos atrás do corpo. Andar parece ser um remédio para o ucraniano, que faz o caminho de ida e volta ininterruptamente, como se estivesse em uma maratona. Quando passa pelo grupo brasileiro, que ainda conversa animado com Aronian, Chucky faz menção de parar e falar com eles, mas logo desiste da ideia tola: não haveria assunto naquela noite que lhe suprimisse a dor da derrota. “Movimento trinta e nove, quando joguei Bispo em e4, sim, foi aí que não consegui mais me sustentar!”.

Pouco a pouco, o salão de festas do Hotel Meliá vai esvaziando-se e os convidados começam a despedir-se. Leontxo, que já havia anunciado sua partida há pelo menos uma hora, pois haveria de gravar um programa de rádio para a Espanha “con Pepa, con Pepa Fernández!”, relutava em deixar o ambiente.  Queria certificar-se de ter vivenciado tudo ali, sem deixar escapar nada de suas mãos grandes. Vassily, que agora gentilmente conversa com a esposa no sofá, até parece estar sorrindo quando, minutos depois, o casal vai embora. Apesar da derrota de hoje, ele ainda é o líder do Grand Slam e vai dar o seu máximo na próxima vez em que estiver dentro da caixa.

A madrugada de sábado adentrava ao aconchegante salão do Hotel Meliá, quando o último convidado deixou o coquetel. Paco Vallejo ainda estava no lobby, tomando o elevador, assim que a trupe brasileira caminhou para fora. Àquela altura, as mulatas já tinham desaparecido e Leontxo devia estar ao telefone com Pepa (“Con Pepa Fernández!”), gravando seu podcast sobre o emocionante último dia no Parque do Ibirapuera. Anand também já havia ido à francesa. Milos e Davy, cansados e satisfeitos, agradeceram aos últimos presentes, levando ao fim o torneio de xadrez mais sensacional da história brasileira.

No táxi, voltando para casa, o motorista elogiou meu blazer “de bacana” e eu pensei em explicar-lhe a importância do momento que havia vivido. Contudo, para que ele entendesse melhor, preferi dizer-lhe somente que havia ido a uma festa em que estavam jogadores como Neymar, Messi, Kaká e Ronaldinho. Desconfiado, o taxista fez silêncio por alguns instantes, mas depois voltou a tagarelar animado, comentando que o trânsito da cidade não tinha mais solução nem àquela hora da noite. Ele ainda acha que sou um cara bacana.

[Tiago Santos, 2/10/2011]
[Fotos: Amanda Marques e Tiago Santos]

13 comentários:

Gérson Peres Batista disse...

Beleza de texto, amigo Tiago. Já pode escrever um livro de crônicas de xadrez... Parabéns!

Masegui disse...

Tiago, meu capitão!

Um primor de crônica! Parabéns!

Anônimo disse...

O texto está muito bem escrito, português polido, no entanto, longo por demais. Saudações!

Tortola-Mgá disse...

Concordo com o Gérson. Muito bom o texto, e não estava longo não! Mas sim muito envolvente! Parabéns...

Sidney Alves disse...

Parabéns Tiago! Excelente sua crônica! Exclama !!

Kruger, Israel disse...

Excelente texto!

abraço

IK

André Reis - andre.reiss@hotmail.com disse...

Muito bom, mas muito mesmo!!

Leo Pasqualini de Andrade disse...

Gostei bastante Tiago, para quem não pode estar lá, quanto mais melhor, afinal fica como parte da história ...

Anônimo disse...

Texto bem escrito, bem cativante, bem emocionante. E sobre o que disse de Ivanchuk ficou interessante e comico a parte dos supostos pensamentos que se passavam em sua cabeça para explicar o tal comportamento.

Anônimo disse...

Parabéns Thiago,

SEU TEXTO COMO SEMPRE BASTANTE CRIATIVO , INTELIGENTE, CATIVANTE E MUITO PRAZEROSO DE LER. JÁ TA NA HORA DO LIVRO, NÃO DEIXA JUNTAR TRÊS NA CABEÇA COMO O LEONTXO GARCIA. ABRAÇOS.

JOAQUIM VIRGOLINO - PARAÍBA

Jovany Medeiros disse...

Parabéns pela crônica. A descrição do local e pessoas foi tão viva que é como se estivéssemos lá. Alguém falou que estava longo. Discordo. Está na medida certa.

Abraço

Jovany Medeiros

Anônimo disse...

Excelente texto! Que nós aproxima um pouco mais dos bastidores e dramas que ocorrrem em um grande torneio. Parabéns!

Anônimo disse...

Parabéns, excelente texto. Muito bem escrito e com muitos detalhes.

Arthur Olinto

Lances Finos