quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A capivara insistente

Insistentes. Não vejo outra palavra que qualifique melhor o que observo nos torneios de xadrez, com relação aos seus jogadores, senão esta: insistentes, insistentes e insistentes.

Está claro que nem todos vão vencer a maior parte dos jogos, nem todos vão jogar partidas brilhantes que possam se orgulhar e - muito menos - nem todos irão angariar alguma espécie de premiação em dinheiro ou status de campeão. Mesmo assim, eles estão lá: pagam a inscrição, viajam de longe, gastam horas e horas dos seus finais de semana e, acreditem, não desistem tão fácil daquilo. Insistentes, insistentes, insistentes.

Que outra palavra poderia definir àqueles que se mantêm firmes num ideal que, convenhamos, tem poucas chances de dar certo ou ser diferente do resultado habitual? O xadrez nos faz iludidos de que podemos vencer qualquer partida, já que não há “melhor elenco”, "erro grosseiro de arbitragem" ou “condições adversas por estar na casa do adversário”, etc. O que ele sente, eu sinto. O que ele enfrenta, eu enfrento. São as mesmas peças para cada lado e, perder ou ganhar, vai depender unicamente de mim. Ou melhor: vai depender de cometer menos erros do que ele, o oponente.

Essa impressão, esse sentimento de persistência, habita grande parte dos enxadristas. Vejam só: se perdêssemos tudo, sempre, provavelmente não teríamos tanta vontade de jogar. Ninguém que seja lúcido, apanhando sem parar, vai continuar optando por uma briga. Se só ganhássemos, por outro lado, chegaria um momento em que a vontade diminuiria. Tudo, fácil demais, perde o tesão.

Então viajamos, pagamos e competimos, crendo, firmemente, que vamos vencer. Que o adversário logo vai pendurar uma peça ou não perceberá a engenhosa combinação engendrada em nossa mente. Os mais sádicos até pensarão: ele irá sucumbir ante o bonito sacrifício de Dama que surgirá daqui a alguns lances, deitando seu Rei em sinal de rendição.

A mesma sensação de sorte que acomete um comprador de bilhete de loteria assola o enxadrista mediano, sem expectativas ou grande força, que se inscreve em um torneio de xadrez. Ele pensa que pode vencer. É claro que, racionalmente, sabe que não ganhará o torneio, não assim tão fácil, porque ele “não tem tempo de se dedicar tanto quanto os outros”. Mas ele acredita, sim, lá no fundo do seu âmago ele tem convicção disso: posso ganhar qualquer partida.

Os pequenos e inexplicáveis momentos pelos quais passamos quando ganhamos, ou mesmo a penitência que nos castiga quando a derrota vem da forma mais inesperada, já que vencer dependia exclusivamente de "um detalhe mínimo que deixamos passar", é o que nos faz continuar jogando. Por isso, lá vamos nós, de novo, de novo e de novo, insistir naquele mesmo ritual: sentar, ajustar as peças nos quadrados, checar o relógio, preencher a planilha, cumprimentar o adversário e mover: 1 e4 ou 1 d4, não importa, a pretensão nunca muda. Somos insistentes demais na paixão que nos move.

[Por Tiago A. dos Santos]

18 comentários:

Reinier Alex disse...

Snif, Snif, fiquei comovido por que me identifiquei com o artigo publicado e é a pura verdade! Somos (capivaras) insistentes mesmo sem ter chances de premiação ou ganho de pontos em rating, rs.

Até sugiro um artigo adicional com o mesmo tema, onde cita os 10 mandamentos do capivara, abaixo algumas sugestões pessoais:

1. Capivara sempre dar xeque, mesmo que sem importância.

2. Capivara gosta de trocar peças sem fundamento.

3. Capivara sempre erra, então espera até o fim da partida mesmo estando inferior na abertura por causa de material ou posição.

Fica as sugestões e parabéns por se expor desse jeito TADS, rs.

Rafael Favarin Pimentel disse...

Assim caminharei até Rio Preto neste final de semana. Pagarei a inscrição, viajarei e farei todo o ritual que antecede uma partida...

Creio que esse post foi muito significativo e várias pessoas que o lerem, ao findar o artigo, se sentir um pouquinho desse sentimento, poderá se englobar nesta classe, ou nessa estirpe, grupo.. Enfim, nessa BASE DA PIRÂMIDE.

Apostamos sempre que em breve conseguiremos jogar bem, sempre deixando para estudar aberturas amanhã e jogando bastante para aprimorar o jogo tático... Claro, australiana também ajuda!

Aos Capivaras, Marrecos, e etc..

Um grande abraço de mais um do bando.

Moisés Arruda disse...

Uma verdadeira radiografia da alma do capivara.

Disse o mestre Herman (salvo engano) que capivara não joga xadrez e sim um jogo similar.

Mas, por todas as razões (ou ilusões) apontadas por nosso amigo Tads, ele continua pensando ser um enxadrista e religiosamente contribuindo, como um dízimo, para os prêmios dos mestres.

Parabéns.

Emerson disse...

Acho que todo mundo que joga vai se identificar , seja capivara como eu ou até mestre de xadrez. Essa busca infinita motiva-nos a continuar e talvez seja a grande magia da arte de Caissa.

Fernando Oliveira disse...

Caro Tiago,

Seu texto é muito interessante e incita uma reflexão produtiva para a comunidade enxadrística. O sentimento "capivarístico" já assolou todo enxadrísta, uma vez ou outra. Embora assole alguns bem mais que outros. Se pararmos para pensar - o que diferencia um jogador em meio a tantos milhões que existem pelo mundo? Acredito que a atitude dele diante do jogo e de suas experiências enquanto jogador façam toda a diferença. Quato a isso, Gary Kasparov em seu livro Como a vida imita o Xadrez diz que a experiência não é aquilo que uma pessoa vive, mas o que ela aprende com aquilo que viveu. Kasparov nos aponta para algo muito elucidativo e crucial a todo jogador xadrez - devemos aprender com nossos erros, tentar entender o porquê deles e tentar corrigi-los. Resumindo - devemos ser responsáveis pelo que fazemos no tabuleiro. Convenhamos, não é a maior parte dos jogadores que se habilita a entrar nesse processo de auto-conhecimento e trabalho árduo.

Conheço jogadores que possuem anos de prática e jamais leram um livro ou pararam para analisar uma de suas próprias partidas a fundo. As razões para isso são várias - falta de tempo, falta de material para estudo, falta de parceiros para auxiliar nas análises, falta de interesse... e até falta de vergonha! (rsrs). Tudo bem! Dentre os milhões de jogadores encontraremso diversões tipos de pessoas e eu acredito, como todos devem concordar, que aqueles que adotam uma postura mais responsável e profissional se sobressaem aos outros.

Conheço, também, bons jogadores que por não terem se saído bem em competições, por terem deixado escapar o lance espetácular que arremataria o jogo ou por terem ficado frustrados por estudar e não obter resultados positivos entraram na (se me permitem criar o termo) "Depressão enxadrística". O sentimento de frustração é tão grande que a pessoa chega a afirmar que "Não serve para o jogo", que "Desiste", que "Nunca vai melhorar". Eu já senti sintomas dessa depressão, embora nunca tenha soltado uma dessas frases. Esses momentos são bons para avaliarmos a força do caráter do ser humano atrás do jogador. Se o xadrez imita a vida, não devemos desistir dele nas situações de crise.

Acima de qualquer aspiração, o xadrez continua sendo um jogo que seduz os seres humanos e continuará seduzindo pela sua capacidade de revelar a engenhosidade da mente humana. Embora belo, continua sendo um jogo e , em hipótese alguma, ser o motivo de dor e aflição, mas sim uma fonte de experiências e aprendizado.

Insistência sim, mas desde que seja uma insistência responsável e consciente.

Saudações,

Fernando Oliveira
www.xadrezreal.com.br

Arthur Olinto disse...

Tudo, fácil demais, perde o tesão. ( pura verdade )

Brilhante o artigo .
Parabéns Tads :D

Eriberto disse...

Muito bom o tema, pois fica o espaço para que capivaras se manifestem e sintam-se no cenário, olhando pelo lado da resenha é divertido e isso em todo esporte existe, porem vou defender outro lado do capivara que o tira da visão de sofredor e o coloca no palco da satisfação e da realização.
Imagino que muitos começam preparar seus orçamentos desde já para as jornadas do próximo ano, e muitos pesquisam e buscam geralmente participar de torneios onde estão os maiores números de jogadores Top.
Como em todo esporte existe o seu publico e seus fanáticos pelos seus ídolos, no xadrez o capivara entra de forma privilegiada podendo estar dentro de uma competição onde sua fonte de inspiração estar ali, onde ele pode levantar da sua mesa e apreciar de perto a disputa do jogador que ele mais admira, e ai vem a realização com a possibilidade de tirar a foto com o jogador que sempre será seu ídolo, e ate ouvir ele comentar o final da partida que acabou de jogar.
Essa é uma particularidade do xadrez que nenhum outro esporte oferece, nas competições de corridas de carros seja lá qual formula for não podemos apresentar a carteira de “Barbeiro” e tentar se aproximar da estrela da competição, no futebol jamais podemos colocar a chuteira do “perna de pau” e tentar jogar em uma competição onde ídolo do momento se faz presente, deste modo vale apena vestir a camisa de capivara, cair na estrada e sair em busca de competições, só o xadrez mesmo para oferecer tanto.
Saindo da fase principal do seu objetivo vêm as estatísticas e possibilidades, soma de pontos olho no emparceiramento e torcendo para que na próxima lista seu nome saia emparceirado com um MF, não deu mais na próxima possa ser que seja emparceirado com um jogador de Rating FIDE, caso não tenha ocorrido isso nesta rodada vamos olhar o Rating CBX do adversário, dai merece uma atenção dobrada para que o extinto de capivara seja colocado de lado e nesses momentos se sinta o cara do tabuleiro.
E assim vai a vida do amante do xadrez, sabendo que todos sabem que ele anda a ano luz da pirâmide do segundo escalão, mais ele vai ta ali, disfarçado de capivara fazendo o que ele sabe fazer de melhor, vivendo com xadrez, jogando algo similar mais ta no meio.

Eriberto

Alvaro Frota disse...

Grande Tiago!

A bem da verdade, não acho que eu seja essa boniteza toda de um "capivara insistente"...

Sou apenas e tão somente mais um viciado em Xadrez. Frequento os torneios da mesma forma que os viciados sobem o morro aqui no Rio de Janeiro ou então passam no boteco da esquina e compram um maço de cigarros ou uma garrafa de cerveja.

Para minha sorte, meu vício é legalizado, não envolve apostas em dinheiro e, ademais, é bom para manter os neurônios em atividade.

Seu texto foi muito bem escrito mas romanceia a realidade.

Aquele abraço!

Álvaro Frota

Masegui disse...

Tiago, meu capitão,

Como Capivara-Mor assumido tenho que fazer algumas observações em complemento ao seu belo texto: Ser capivara é...

... não ter nas costas as responsabilidades que assolam os mestres!
... maravilhar-se com as partidas alheias sem o olhar crítico em busca de falhas.
... valorizar mais o encontro com os amigos do que a correção dos lances.
... uma dádiva de Deus!
... etc.

Em meu blog tem um post de dezembro de 2007 cujo título é "Capivara, graças a Deus!" que começa com uma frase de Brian Wall, que vem a calhar:

"Everyone has great Chess stories.
The Chess doesn't have to be perfect,
only the emotions have to be real."

Eis alguns trechos:

...você não precisa ter um título de mestre, ou grande mestre, para usufruir das maravilhas
que o jogo oferece. O xadrez é tão bacana que existe um título específico para aqueles que não alcançam a mestria no jogo: Capirava!

... o prazer de se jogar uma partida independe de seu resultado final. As análises post-mortem, a resenha, o aprendizado adquirido e a satisfação da vitória, se e quando for o caso, são mais que suficientes para lhe proporcionar um imenso prazer e divertimento.

... Sendo um Capivara de carteirinha, posso fazer minhas resenhas, contar meus causos e até arriscar umas análises de partidas, sem me preocupar com a perfeição exigida pelos mestres.

... o fato de ser Capivara muito me apraz! Após uma derrota o mestre passa horas a fio analisando a partida, tentando descobrir onde errou, por que perdeu, etc. e tal. Eu, Capivara confesso, dou uma rápida olhada, chego a conclusão de que foi outra "capivarada" e vou pro boteco da esquina "cervejar" com os amigos.

Paulo Palozi disse...

Insistentes somos todos nós, amantes do Xadrez! Seja apenas buscando uma simples vitória,, um título, uma partida caprichada, uma melhor pontuação ou colocação, pontos de rating, zombar de um amigo, divertir-se ou somente melhorar um pouco. Não importa o objetivo, estamos sempre buscando a prática, nos reunindo onde quer q seja, jogando, buscando, insistindo...
...e crendo que um dia chegaremos lá!

Ótimo texto Tiago!
Abraço

Luiz Carlos disse...

Parabens de um "capivara enxadristico" de 76 anos de idade que se considerou "orgulhosamente" "fotografado" no seu texto inteiramente verdadeiro.
Você mostrou ser um " Grande Mestre" no entendimento enxadristico.
Parabens pelos seus inumeros e grandes trabalhos .
Luiz Carlos-Curitiba-Pr.

Tads disse...

Pessoal, fiquei bastante contente com a repercussão do artigo e, principalmente, com a contribuição que estão dando nos comentários!

Capivaras, unidos, são mais fortes! :D

Ao Reinier, gostei da sugestão dos mandamentos, com certeza temos mil desses pra escrever!

Sobre o que disse o Rafael, gostei da definição de "bando". Mais um pra gente se incluir (além do bando de loucos corintianos). Bom torneio em Rio Preto, você pode vencer, não desacredite! :)

A definição de "dízimo enxadrístico", que o Moisés trouxe, é genial! hehe Mas, assim como o dízimo legítimo, os doadores veem uma recompensa que os satisfaz, e let´s go!

Concordo também com o Emerson de que essa talvez seja a "magia da arte de Caíssa". É o que eu penso. Não vamos parar de jogar! É mágico!

O comentário do Fernando dispensa qualquer palavra: conciso, inteligente e agregador, trouxe muita informação nova que vale a leitura tanto quanto a do próprio artigo. Obrigado, Fernando!

Arthur: só pensa na parte da sacanagem, né! hahaha Brincadeira! :p

A característica que defendeu o Eriberto eu também achei fantástica e, acreditem, nunca tinha olhado sob esse ponto de vista. É sensacional que o xadrez nos coloque no mesmo campo que nossos "Messi, Ronaldinho e Neymar". É sensacional que possamos jogar "ao lado deles", mesmo estando tão distantes no conhecimento. Meu amigo Ricardo Lísias diz que "os Grandes Mestres enxergam mais. Eu também queria enxergar mais". Simples assim. Mas, mesmo não enxergando mais, podemos nos colocar lado a lado. Bendito seja! :)

O Alvaro alertou para o aspecto do "vício legalizado", o que eu acho verdadeiro, mas penso que ainda não me atingiu. Porém, vale a preocupação, quando o esporte deixa de ser 'prazer' para virar 'obsessão'.

Masegui, o verdadeiro capitão, fez complementos brilhantes, como sempre! Sensacional a frase de Brian Wall.

Já o Palozi é mestre, e quase não tem o direito de comentar esse texto aqui (rs), mas ampliou nosso horizonte também. Chegaremos lá, claro! - mas você vai chegar bem primeiro que nós hehehe

Por fim, o comentário do Luiz Carlos me comoveu. Fiquei realmente emocionado. Poxa, Luiz, é um prazer que alguém de tamanha vivência e experiência acesse um blog simples como o meu. Sou eu que agradeço, GM!

Abraços a todos e que continue a discussão!

Tiago
@tasantos

Taís Sandrim disse...

Como representante da categoria, parabenizo-o pelo texto. E, em adição, uma frase que ouvia muito quando jogava por Matão: "Capivara não tem garantia. Nem de noite, nem de dia."

Lauriê disse...

Sensacional! :)

Fábio F. disse...

Mr. Tads,

Gostei muito da forma com a qual você foi literário em cada ponto.

Particularmente, acho muito mais graça em conhecer as limitações relativas a um zilhão de possibilidades do que lutar eternamente para atingir um estado utópico de pseudo-perfeição.

E vida longa às capivaras!

Max disse...

Tiago!

Me identifico muito (mais muito mesmo) com teu texto, assim como vários colegas nesta nossa arte tão conhecida e tão misteriosa.

Talvez um dos maiores mistérios seja mesmo o que nos faz continuar nesse lida, dedicando horas e horas em estudos (segundo nosso amigo Sávio, é tudo questão de tática, tática e mais tática).

O que me faz continuar, como disseram outros logo aí em cima, é a falta de pressão, afinal sou um grande capivara, e isso não tira do xadrez o status de diversão. Além disso, não sou um jogador nato de xadrez, me divertindo muito mais estudando e analisando partidas (quer coisa melhor do que ficar procurando defeito no jogo dos outros? hehehe).

Parabéns pelo artigo e, mais ainda, pela reflexão!

Nach disse...

Insistentes em desvendar os deliciosos segredos de nossa Deusa Caíssa, assim estamos sempre. Doce (des)ilusão. Os encantos de nossa Musa ultrapassam os limites de tudo o que conhecemos, supera todos os átomos do Universo, nos fazem esquecer dos problemas do cotidiano e as vezes... bem, nos coloca perante a outros tantos. Tic-Tac, e lá se vai a seta, como uma bomba relógio prestes a explodir. 15 segundos para o fim do mundo, Tic-Tac, Tic-Tac, 7 segundos... 3, 1... a batalha foi perdida, acabou-se tudo. Mas um enxadrista possui muitas vidas, quase tantas como quiser. Pode enfrentar centenas, milhares de novas batalhas, ganhando algumas, perdendo outras, firmando o empate... Nossa Deusa, triunfante, esboça um leve sorriso, seu ego enorme denuncia: és idolatrada por centenas de milhões de fiés no mundo todo.

Anônimo disse...

Ontem (28/01) o GM Krikor, de quem sou fã, perdeu para uma menina de 16 anos, com rating menor do que 2200. Ou seja, o xadrez pode ser, sim, uma "caixinha de surpresas". Parabéns pelo excelente blog.

Lances Finos